terça-feira, 17 de março de 2009

O desafio de se formar Midiálogo

A aproximadamente 4 meses de finalmente finalizar a maratona que foi estudar e me formar Midiálogo, pegar o canudo e tocar a vida com projetos individuais (que incluem trabalho, vida e um possível mestrado) recordo-me de um dia há 4 anos. Retorno, na verdade, 4 anos mais na linha do tempo. Quando tive todas as certezas e todas as surpresas que podem ser reservadas para um humilde filho de encanador e uma dona de casa que ensinaram muito para a criatura que vos fala.

Um periodo que posso dizer, foi de muitas certezas e muitas realizações. Não necessariamente complementares. Explico a seguir.

Tive a primeira certeza 4 anos antes do tempo que falei anteriormente, quando na sétima série do ensino fundamental da Escola Estadual Professora Lourdes Maria de Camargo (vulgo Grupão, que na minha época era a ultima chance de todos os alunos que foram expulsos das outras escolas por qualquer motivo que fosse) eu tive a certeza de que iria fazer faculdade. E no ano seguinte soube que seria pública, custasse o que custasse. E custou. 4 anos depois da primeira certeza, tive a certeza de que não conseguiria sozinho.

E veio o cursinho. E veio a aposentadoria do meu pai. E veio o aperto. E vieram forças não sei da onde para dizer "ok, vamos continuar" quando eu não passei na primeira vez.

Veio a primeira paixão (não correspondida, viria a se tornar a regra e não a excessão na minha vida. Como foi na vida de metade da humanidade nessa idade). Vieram os primeiros amigos de verdade, vieram as frustrações. Vieram as festas. Veio mais uma certeza: nunca faria parte daquilo, seria o chatão da turma, seja lá qual fosse o meu fim.

E foram 3 anos assim. Estudando, fazendo de tudo para garantir um lugarzinho ao sol dos abençoados pelo conhecimento especializado e superior. Durante esse periodo, outras certezas apareceram: certeza que iria morar sozinho; certeza que iria para a Metrópole; certeza que estaria na USP; certeza que faria Audiovisual. Depois vieram outras certezas que mudaram um pouco as anteriores: certeza que faria cinema; certeza que seria diretor ao sair do curso; e a melhor de todas: certeza que nunca faria Unicamp.

"Pow", pensava eu, "nunca que vou passar numa prova que exige matemática e física na segunda fase. Sou um cara de humanas irremediável.

Então, o segundo ano de cursinho! Menos uma preocupação: era bolsista agora. E o curso de Midialogia começaria no ano seguinte. Uma professora de redação (será que a Elza ainda dá aula pros 'boyzinhu' do Anglo entre as disciplinas de ética no ITA?) sabia de minha vocação para a comunicação (apenas cinema, na época) e disse a famosa frase "mas por que você não tenta?"

"Ok, é mais uma opção. Mas nunca que eu vou conseguir passar!"

Vieram as provas, vieram os resultados, vieram as segundas fases, vieram os novos resultados. E então vieram os três nãos e um talvez. O talvez foi de quem?! Ora, mas vejam só!

Foi então que eu tive uma das ultimas certezas dessa fase: Unicamp é uma opção.
Não consegui entrar. A lista parou na minha vez ("Maldito Diego! Se você fosse um filho da puta seria muito fácil querer a sua morte no ano seguinte!"). Mas tudo bem, tive ali a certeza que as exatas não me odiavam mais que eu as odiava. Ali tive a certeza (ó, outra!?) de que cursos como engenharia de *whatever* eram também opções. Mas eu sou de comunicação (ainda comunicação para mim era o cinema), então vou por onde acredito ser meu lugar.

Foi mais um ano de cursinho. Desta vez fui bolsista 100% do cursinho Iguatemy, não muito conhecido na cidade. Mas tinha certeza que ia fazer cursinho aquele ano e que ia tentar de novo.
Eis que o cursinho faliu, bem no meio do semestre. E eu trabalhava nele para manter o material, que não era incluso na bolsa.
"Ok, o que acontece agora", pensava. Um outro cursinho acolheu os desesperados alunos desamparados do Iguatemy. Toca todo mundo ir para o COC. E veio o trabalho no depósito da familia. E vieram os clientes chatos, as velhas gordas, os calotes, as brigas com clientes caloteiros, os furtos (posteriormente viraram assaltos). E eu tinha certeza que ia morrer de estresse.
Pronto. Fim de ano. Provas. Agora nada de Rio de Janeiro, só faculdades de São Paulo.
Veio a Ufscar. Foi! HIIIIIIHAAAA!
Veio a Unesp. Foi! HIIIIIIHAAAA!
Veio a Unicamp. FOI! CARALHO! HIIIIIIHAAAA!
Veio a Usp.
...

Bom, pelo menos eu iria fazer faculdade
E eu tinha certeza que no fim do ano prestaria Usp de novo e... Ok, vamos para São Carlos. Imagem e Som é tudo o que eu queria! Dava para trabalhar com cinema lá. Certeza.
Ultima semana antes da matrícula da Unicamp.
Mas o curso de Midialogia parece ser tão bom. E é a Unicamp. E é comunicação. E está começando. E está cheio de problemas, com certeza. E eu sempre adorei o desafio de construir algo em conjunto!
Sexta feira, ultimo dia. Mando ou não a carta desistindo de São Carlos?
...

"Everton [irmão], você sabe chegar em Campinas?"

E começa o curso. Novo mundo, nova vida.
Pensionato com 20 pessoas (fora as 20 meninas no prédio dos fundos). Tive que colocar o inglês e o portuñol para funcionar algumas vezes, porque estrangeiro era o que mais tinha naquele lugar. E ainda tem.
Foi avançando o ano, evoluindo nos trabalhos, amadurecendo nos estudos, conhecendo gente nova. E o gosto pela Unicamp bateu. E por lá tive a certeza que ficaria. Fiquei.

Primeiro ano. Perrengues à granel. Amores, desamores, brigas, desafetos, noites em claro, problemas em casa, cobranças de todos os lados, menos um tio na familia, menos um vizinho, festas... tanta coisa, que envolve tantos sentimentos e tantas pessoas que explicar e exemplificar é impossível, além de não-ético e não-bom. Mas para ilustrar, tive a certeza que não aguentaria.
Mais três anos. Amigos vieram, foram. Corações partiram, corações se uniram e se separaram e se uniram e se separaram e se uniram e se... enfim. Vidas foram jogadas fora, familias se formaram, familias se desfizeram. Repúblicas formaram-se. Tantas lágrimas foram derramadas ao som de guitarras e atabaques, ao cheiro de mato e ao gosto de álcool, tabaco e felicidade/decepções. Atos públicos, Midiatos. Chamamos os movimentos e as convenções pré-estabelecidas "pra xincha", ganhamos uns, perdemos outros. Toca levar a vida.
Tive certeza que faria cinema. Certeza que produziria, dirigiria ou iluminaria. Certeza que nunca faria o projeto de multimidia.
E vieram os projetos: TV primeiro. TV digital. Mini documentários para web tb com suporte textual. Próximo do que o Youtube permite fazer agora com as suas tags em video, só que antes dele fazer isso. Como provar? Não posso. Nunca acabou. A greve acabou com ele (e eu também ajudei, admito).
Então fotografia depois. Documental, mas com um veio artistico. O 10 mais merecidos que tive.
Projeto de áudio. Vou fazer um... documentário, com apresentações musicais. Ótimo. Equipe mais que reduzida. Produzi, dirigi, pesquisei, filmei. Matei. Outro 10. Missão cumprida. Missão comprida (*ufa*).
Agora falta o de cinema. Mas eu nunca dirigi. Tudo que eu fiz foi relacionado a som e a games. Games? Sim! um estágio no meu primeiro sonho de infância. Meu Deus. Bica projeto de cinema e toca fazer de multimidia. Complementar é viver.

E é isso que está saindo. Discussões, discordâncias, debates. Descanço.

Em julho o IA vai olhar para mim pela última vez e me chamar de aluno. Nesse dia ele me entregará um papel que diz "Missão Cumprida! Adeus, dê licença pois o futuro vem vindo pelo menos corredor que vocês está saindo"
E todas as certezas eu tive. Não me arrependo de nenhuma, mesmo das que não se cumpriram (a grande maioria).
Talvez por isso tenho medo de novas certezas, como a certeza de que farei mestrado, de que quero continuar trabalhando com o que estou atualmente, de que quero começar e terminar projetos pessoais. Tenho medo de certezas como essas porque não sei ao certo se aconteceram ou não.

A única certeza que tenho é que em julho, um dia pelo menos, meus olhos ficarão vermelhos.
E ouvirei "Mr. Brightside", e quem estiver comigo ficará também com eles vermelhos. De novo.

Agora acabou o quarto ano. Novos calouros entram. Um rapaz com cara de menino me diz: "hey, você é o Élcio, não? eu sou veterano da Midialogia!" Lógico que minha primeira pergunta é como assim? "Ah, é que eu sou 08. Você não conhece bem nossa turma, né?" E a realidade veio. Acabou meu tempo. É hora de ir embora. O sonho universitário já era, já disse um amigão meu. Não concordo porque se era pra ter esse sonho, me acordaram no meio. Mas entendo. O que mais fiz foi entender, e também não.
Agora é a vez deles. E eu sou o passado. Eu que vou ser alvo da frase que mais ouvi minha turma proferir: mas o que ESSE CARA tá fazendo aqui ainda?!

Finalmente vieram mais algumas certezas: de que fiz uma boa

2 comentários:

Liene Saddi disse...

Estou com os olhos cheios de lágrimas... Acho que qualquer midiálogo ao ler esse texto ficaria... Incrível o quanto esses anos deixam marcas tão profundas na gente, não? E que foram um pedacinho tão importante da vida pra ajudar a nos construir não apenas como profissionais, mas também como pessoas.
Muito bonita sua história, e com certeza posso falar que todo esse esforço seu e de sua família valeu apena, agora os próximos tijolinhos dirão como você irá usar tudo isso pra seguir seu sonho... :~)

Pode deixar que logo logo eu volto a escrever, mas mesmo enquanto isso vou ficar te acompanhando por aqui!

Grande beijo.

Liene Saddi disse...

pronto, de volta!
até que dessa vez foram rápidas minhas férias virtuais! rs... já podemos voltar a trocar figurinhas blogueiras, dê uma passadinha lá depois!

um beijo!